Montando o esqueleto da prova subjetiva da OAB

Em um passado não muito distante, os candidatos aprovados na segunda fase do Exame de Ordem tinham tempo para fazer o rascunho da prova e depois passar a limpo direitinho na folha de resposta.

Aliás, nesse tempo era possível inclusive consultar a doutrina e a jurisprudência durante a prova.

Eram tempos dourados e os candidatos não sabiam.

Hoje a história é outra: o candidato tem de pensar e escrever freneticamente para dar conta de todo o conteúdo.

É bem verdade que na última prova subjetiva não foi assim, mas nas provas dos Exames 201o.3 e 2010.2 a história foi dramática.

Muitos examinandos não conseguiram terminar a prova dentro das 5 horas disponibilizadas, dado o grande volume de informações a serem trabalhadas.

Não foram provas difíceis sob o ponto de vista técnico, mas sim extensas, cansativas. E, pelo percentual de aprovados na 1ª fase do atual Exame, a perspectiva de provas novamente extensas é bem real – Exame de Ordem: Percentual de aprovação na 1ª fase foi de 45% – Possivelmente 48.600 candidatos foram aprovados

Mas montar um esqueleto para a prova não é só em função de substituir o hoje inexequível rascunho: o esqueleto pode assumir o importante papel de mapa, um passo-a-passo na prova.

O real papel do esqueleto é o de sistematizar os esforços do candidato, otimizando o tempo e dando segurança.

Um esqueleto bem concatenado dá muita tranquilidade ao candidato. Pode-se dizer inclusive que o real esforço intelectual estaria concentrado na construção do esqueleto. Depois, redigir a prova seria apenas um trabalho braçal decorrente do núcleo delimitado nesse rascunho da petição.

Como então montá-lo?

O papel do esqueleto é o de sistematizar, logo, o candidato tem de saber no que consiste a sua prova.

1 – Definindo a peça

A peça é o crânio da prova, a parte mais importante de tudo. Se o candidato erra a peça inevitavelmente reprovará.

Leia sua prova com calma, e determine qual a solução processual adequada: é uma inicial? Um recurso?

Ao definir a peça adequada, escreva na FOLHA DE RASCUNHO o nome da peça:

Peça cabível: Recurso X

Mas não basta só elencar a peça, seria simples demais e praticamente inútil como esqueleto. Delimite também os demais elementos constitutivos da qualificação da peça de forma a tornar a compreensão do todo bem clara:

Peça cabível: Recurso X

Juízo A Quo: Juízo da Vara W

Juízo Ad Quem: Tribunal Regional da Y Região

Recorrente: Fulano

Recorrido: Ciclano

Fundamento legal da peça : Art. 123 da CF c/c Art. 321 do Lei Z

Folha interposição de recurso endereçada ao juiz da causa? sim!

Escolhi deliberadamente acima uma estrutura de esqueleto referente ao um recurso. Vocês podem observar que a essência da peça foi delimitada, determinando a existência da folha de interposição do recurso, a competência, juízo a quo e ad quem, parte, fundamentos legais (declinar os fundamentos legais da peça é parte ESSENCIAL da prova. Sempre, sempre, sempre fundamentem com os dispositivos legais pertinentes) e, ao fim, a existência ou não da folha de interposição.

Vejam que na construção do esqueleto quase todo trabalho de pesquisa no vade mecum e de compreensão da problemática é realizado. Escrever na prova transforma-se quase que em um trabalho braçal.

Ao visualizar a estrutura da peça o candidato pode perceber com mais nitidez se falta algum detalhe ou informação pertinente. Isso é de extrema relevância: não deixar passar nada!

Mas a petição não é só feita de um “crânio” e sim do Direito Material controverso, a própria essência da petição.

Evidentemente, a estruturação dos tópicos da petição dependem do problema e de suas nuances: existem preliminares? Quantos tópicos controversos estão sendo exigidos na peça?

2 – Delimitando os tópicos

Essas são as duas principais perguntas a serem respondidas. De toda forma, pode-se apresentar um “modelo” de esqueleto para essa etapa da prova. Vamos conferir:

Tópico 1: Preliminar Q

Tese a ser combatida: Um tapa na cara não gera direito a indenização por danos morais (ao descrever a tese a ser combatida seja ultra, hiper, mega sucinto. É só uma orientação para si mesmo, nada além disso)

Fundamentos contra a tese a ser combatida: Art. 123 da Lei C, art. 321 da Lei U e Art. 231 da Lei Y + Súmula 123 do STF.

Conclusão: pelo provimento do recurso

Tópico 2: mérito – danos materiais

Tese a ser combatida: Danos decorrentes da colisão de veículo decorrem de culpa concorrente

Fundamentos contra a tese a ser combatida: Art. 123 da Lei S, art. 321 da Lei E + Súmula 321 do STJ.

Conclusão: pelo provimento do recurso

Observem alguns detalhes interessantes:

Os tópicos são divididos em 3 partes (tese a ser combatida, fundamentos contra a tese a ser combatida e conclusão). De um modo geral, cada tópico a ser trabalhado na prova pode ser construído em 3 parágrafos.

O primeiro (tese a ser combatida) carrega um pequeno resumo do ponto do enunciado referente ao tema. É a descrição da decisão a ser combatida.

O segundo é a SUA visão, como advogado, do que efetivamente deve ser, contendo as razões para a reforma do ponto de vista a ser combatido (no caso em tela, do juiz) e, o mais importante, os fundamentos legais e jurisprudenciais que justificam e embasam a reforma do decidido pelo juiz da causa.

Se o juiz disse “A”, tal como você mostrou no 1º parágrafo,  no segundo você vai dizer “Não A” declinando as razões legais para o ”Não A”.

No terceiro parágrafo você reforça os argumentos do do segundo parágrafo (apenas de leve) e requer a reforma da decisão do juízo a quo naquele tópico em específico.

Esse é um método de construção lógica do raciocínio que funciona perfeitamente dentro do Exame de Ordem. As ideias são dispostas de forma segmentada, sequencial e com clareza, sem firulas, enrolações e mistérios.

Fica fácil para quem lê entender a linearidade e consistência do raciocínio do candidato, e isso é tudo o que vocês podem querer na hora de serem corrigidos.

Construir o esqueleto dessa forma poupa tempo na hora de redigir de fato a petição. O candidato visualiza o todo e seus detalhes com mais clareza, consegue perceber eventuais falhas de raciocínio na hora da redação, e, acima de tudo, poupa tempo e reduz as margens para equívocos.

Por fim, o candidato, para completar o esqueleto, precisa fazer o seu pedido, e ele precisa ser completo, detalhando os pontos de Direito Material declinados no corpo da peça, pedindo o conhecimento e provimento dos tópicos, a intimação do recorrido e do MP (se for o caso).

Lembre-se: o esqueleto deve ser sempre sucinto, pois sua função é a de orientar o candidato. O esqueleto serve para organizar e detalhes os pontos importantes, só isso. Outros elementos da prova serão escritos na hora do candidato efetivamente escrever sua peça.

Colocar TODOS os detalhes no esqueleto representará uma imensa perda de tempo. Não é esse o objetivo…

3 – Ossos finais

Toda e qualquer metodologia a ser utilizada na hora da prova deve e precisa ser antes treinada. Deixar para fazer um esqueleto eficiente só na hora da prova pode dar um trabalho desnecessário ao candidato, tomando-lhe um tempo precioso.

O uso do esqueleto não é obrigatório e muito menos imprescindível. Fazendo um teste antes o candidato pode avaliar se compensa ou não adotar um para sua prova.

Aliás, não existe um modelo certo para elaborar um bom esqueleto: cada candidato pode e deve fazer ao seu estilo, se assim achar adequado. O importante, de toda forma, é fazê-lo de forma sintética, com as informações relevantes e com uma boa celeridade, computando aí o tempo para a leitura do problema, a pesquisa das leis e da jurisprudência no vade mecum e o tempo para sua construção em si mesmo.

Para mim, um esqueleto construído com inteligência é muito útil: organiza a visão geral da petição e concentra grande parte da pesquisa e trabalho intelectual, tornando tudo bem claro na hora de redigir de fato a peça.

É uma beleza!

Por Maurício Gieseler em 16 de novembro de 2011 às 10:43

Categoria: Advocacia, Como se preparar para a prova

35 Comentários para “Montando o esqueleto da prova subjetiva da OAB”

  1. Excelente Maurício!

    Estava apavorada tentando organizar a estrutura….vc me ofereceu o que precisava neste exato momento.

    Deus o abençoe!

  2. Drº Mauricio, o que venho escutando nos cursinhos de 2ª fase, é que o percentual de aprovados, está em torno de 15% !!!!! e não 45%!!!.
    Este percentual de 45% é o divulgado pela OAB ?

  3. Dr. Mauricio,
    Estou aflita, voce sabe quando sai a resposta das anulações das questões? Estou com 39 e aguardando o resultado para saber se irei para a 2º fase, já ouviu falar algo sobre isso, data e quantas poderao ser anuladas……..que agonia………..

  4. Dr. Mauricio e sobre as anulações , qdo sai o resultado, pq nao estao comentando mais, preciso de 01 ponto e estou apavorada, sera qua nao haverá nehuma .

    obrigada.

  5. Dr. Mauricio, gostaria de saber porque este certame quase nao foi comentado em seu blog sobre as anulações????? Você acha que não será anulada nenhuma??? Nem mesmo aquela questão extremamente rídicula de ética Crésio que o advogado deve pedir AUTORIZAÇÃO para advogar para cliente que nao quer o seu antigo patrono…… Que tortura hein…..rs

  6. Ai meu DEUS não haverá nada de anulações, pq tanto mistério meus nervos estão a flor da pele……..

    Professor Mauricio por favor tenta saber de algo é impossível tanto mistério ….

    obrigada.

  7. Maurício,
    Estou um pouco perdida.. na reclamação trabalhista preciso fundamentar ou posso apenas apresentar o texto corrido, relatando os fatos e fazer os pedidos? Muito obrigada!

    • Você deve fundamentar!
      A banca pontua e muito a fundamentação, ou seja, a base legal de cada argumento.
      Fiz trabalhista na segunda fase, e a peça mais chata é a reclamatória, pq vc tem que narrar o fato, fundamentar e fazer o pedido. Depois, no pedido propriamente dito, vc tem que repetir todo o seu pedido. Por exemplo. O reclamante laborava das 08h às 19h, com intervalo de almoço de 1h, de segunda a sábado. Logo, excedeu a jornada de trabalho prevista nos arts. xxx, da CF e arts. xx da CLT, fazendo jus a xxx horas extras. No pedido, vc deve pleitear a condenação ao pagamento de xxx, horas extras.
      Vc não pode deixar de fundamentar e no pedido, em uma RT, vc JAMAIS deve fazer o pedido genérico pela total procedencia do pedido, mas sim a requerer especificando cada um dos pedidos feitos.
      Aconselho que faça um cursinho, pois ele irá direcionar seus estudos.

  8. Pelos modelos de esqueletos acimas demonstrados pelo Dr. Maurício, acho que implicitamente a prova de Direito do Trabalho deve cai uma inicial ou um Recurso.

    Será Dr. Mauricio.

  9. Jussara Santos disse:

    Dr. Mauricio, estou tendo dificuldade de encontrar as respostas da questões abertas no código, vou fazer Civil na 2ª etapa, como não tenho grana para fazer um curso preparatorio estou estudando sozinha, qual é a melhor maneira para achá-las? 1º procuro na CF, dpois na lei extravagante e só depois que procuro no CC e CPC?

  10. Huahuahua!
    Me senti na foto…devo ter perdido uns 5 kg com uma gastrite oabesística.

    Ah…Não esqueça de orientar a galera, que se errar a peça reprova e se ACERTAR reprova também! Já passei por isso…é só a FGV “esquecer” de corrigir algumas questões ou usar a tática : “a prova é SUBJETIVA”.

    E nem me chamem de pessimista…isso é realismo puro.

    • Como assim? Se acertar reprova também? “esquecer”? Seja mais clara, ficar aqui escrevendo coisas sem nexo não vai ajudar em nada. Tem muita gente que está na primeira vez do exame, assim como eu.

  11. Mauricio, por favor, publique aqui. É de utilidade pública:
    Pessoal, estou com um livro de prática constitucional sobrando.
    Quem quiser, eu mando de graça. Peço apenas que arque com o custo de envio.
    Sds

  12. Dr. Maurício, gostaria muito da sua ajuda. Vou estudar as peças de penal, mas gostaria de focar mais em determinadas peças que poderão vir a cair.
    Vi as últimas peças pedidas pela banca e vi tb as peças pedidas nos ultimos 10 exames.
    Estão apostanto em peças cabíveis durante o processo.
    Acha que tem grandes chances de cair memoriais? ou uma resposta à acusação ou quem sabe uma queixa? Queria umas 3 ou 4 peças para focar, haja vista que o tempo é curto para o exame.
    Pensei também que a banca para complicar, pode tentar inovar nas peças…pedindo alguma peça que nunca caiu no exame ou alguma que só caiu uma ou 2 vezes na OAB..ou fazer essa média que estao fazendo apostando em alguma que caiu varias vezes mas que nao caiu recentemente. Caso eles peçam alguma peça provável, poderão fazer uma prova extensa pra complicar a nossa vida….nada concreto mais muito possível.Caiu apelação na última…nada impede de cair novamente…só por pegadinha deles..

  13. Alguém aí tem alguma dica de que peças poderiam cair na prova de penal?

  14. Maria Ferreira disse:

    Dr. Mauricio, se por acaso cometer um erro na redação da peça, não posso rasuar e usar branquinho… O que devo fazer???

  15. Dr. Maurício minha dúvida é a seguinte. Posso marcar a CLT com marca texto os principais e mais usados artigos, sem que isso venha me causar algum transtorno na hora da prova? Gostaria também que o Sr. postasse aqui algumas dicas do que pode levar e como pode levar.

  16. Dr. Maurício, cai de gaiato nesse exame, pois sou concursado e nem sei se quero advogar, para se ter uma idéia eu nem ao menos estudei para a 1º etapa, mas já que passei, pq não resolver isso logo não é verdade? Como é a minha primeira vez, gostaria de tirar algumas dúvidas que parecem bobas para alguns, porém me incomodam:

    Estou tentando trabalhista e quanto o Dr. diz “os fundamentos e jurisprudências que embasam” ou “a pesquisa de leis e jurisprudências no vade mecum”, está se rerindo á qual jurisprudências? OJs? Já que um dos materias proibidos é jurisprudência? Na prova haverão jurisprudências?

    Como colocarei jurisprudências nas peças já que não poderei levá-las? Ainda mais se cair um RR? O Dr. tem uma relação de quais as possíveis peças que serão cobradas?

    Estou estudando sozinho e ainda não formei, sem tempo para cursinho, então desculpa se as perguntas forem idiotas, mas esta prova está me deixando meio retardado…rs.

  17. Sueli da C Camargo disse:

    Esse professor Mauricio é demais….suas respostas então..nem se fale!
    O blog é a UTI dos candidatos do exame da ordem.
    As questões, as dicas são ótimas!
    É como ter um ombro amigo para chorar, reclamar, perguntar tudo sofre o terror desse exame!!!!
    A dependência da carteira para começar a trabalhar nos deixa tenso!
    Ainda bem que tem o blog do Dr. Mauricio para esclarecer dúvidas e desabafar.

    Parabéns!!!!!!!!

  18. alguém arriscou a segunda fase em tributário?